
A positividade da beleza está a tornar-se tóxica? Quando a beleza deixa de nos fazer sentir melhor
Há momentos em que uma palavra, repetida demasiadas vezes, começa a perder o seu significado. Nos últimos anos, isso tem acontecido muitas vezes na indústria da beleza, especialmente com termos como brilho, amor-próprio, empoderamento, confiança, bem-estar , autenticidade e ultimamente até a positividade de beleza não tão credível. Palavras originalmente destinadas a reduzir a pressão da beleza transformaram-se lentamente numa nova forma de pressão. Mais subtil, mais elegante e precisamente por causa disso, muito mais difícil de reconhecer. Esta reflexão veio a mim durante um evento de beleza em que participei há alguns dias. Iluminação perfeita, estações de cuidados com a pele, pessoas sorridentes, fala de autocuidado, bem-estar e aprender a amar mais a si mesmo. Tudo parecia lindo, polido, positivo. Talvez um pouco positivo demais. Tive a sensação de que na cultura da beleza de hoje, já não há espaço para se sentir mal, estar cansado, ter a pele sem brilho, falta motivação, ou simplesmente não se sentir a melhor versão de si mesmo. Como se até o bem-estar tivesse se tornado uma performance.
A nova estética da felicidade
Durante anos, a indústria da beleza impôs padrões de beleza impossíveis. Depois alguma coisa mudou. Palavras como autenticidade, positividade da pele, pele real e autocuidado chegaram e, por um momento, realmente senti que a indústria estava a tornar-se mais humana e realista. Só que hoje, essa mesma narrativa parece ter evoluído para outra coisa. Já não somos solicitados a sermos perfeitos, mas a sermos equilibrados, brilhantes, conscientes, calmos, polidos e gratos. Sempre. A pele já não tem de ficar bonita. Tem de brilhar. O corpo já não tem de ser magro. Tem de parecer saudável. Os cuidados com a pele já não são apenas uma rotina. Tem de se tornar autocuidado. E é assim que, de repente, até o bem-estar corre o risco de se tornar outro objetivo estético.
@itsamymillie Live YOUR best life, not the life someone else tells you to live.
POV - K bye for now
Quando o autocuidado se torna uma obrigação
O problema não é o autocuidado em si mesmo. Muito pelo contrário. O problema começa quando deixa de ser espontâneo e torna-se mais uma coisa que temos de fazer e fazer perfeitamente. Rotinas de cuidados com a pele em dez passos. Suplementos infinitos. Pilates às 7h. Diário. Meditação. Matcha. Cuidados de pele perfeitos antes de dormir. Tudo é apresentado como equilíbrio. Mas será que temos a certeza de que sim? Às vezes, o risco é que a cultura da beleza contemporânea já não nos diga “cuide de si”, mas sim “melhore-se constantemente, apenas faça-o suavemente”. E esse tipo de pressão é muito mais difícil de reconhecer porque vem disfarçada de bem-estar.
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O direito de não sermos sempre a melhor versão de nós mesmos
Uma das coisas mais desgastantes da cultura moderna da beleza é que parece já não deixar espaço para a neutralidade. Estás na tua era do brilho. Estás a repor a tua vida. Está a trabalhar em si próprio. Estás a curar. Está a tornar-se a sua melhor versão. Mas e se estivermos simplesmente cansados? E se não quisermos transformar cada gesto numa outra forma de auto-aperfeiçoamento? É exactamente essa a questão. A beleza deve fazer-nos sentir melhor, não nos fazer sentir constantemente otimizados.
A pele real nem sempre brilha
Nos últimos meses, tem havido conversas intermináveis sobre a pele real e sobre imperfeições que abraçam: textura, poros, olheiras e manchas. Mas mesmo esta ideia de “realidade” muitas vezes parece curada. Uma versão da realidade pensada para parecer esteticamente agradável porque marcas e criadores perceberam que tem um bom desempenho online. Uma forma estética de vulnerabilidade. A verdade é que há dias em que a pele parece sem brilho e cinzenta. Dias em que nos sentimos inchados, exaustos e sobrecarregados. Dias em que não temos tempo nem energia para cuidados com a pele, beber dois litros de água, ou transformar o nosso desconforto em conteúdo motivacional. E honestamente, isso também deve ser considerado normal.
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Beleza ou performance?
Assim, a questão torna-se inevitável. A cultura da beleza contemporânea está realmente a ajudar-nos a sentir-nos melhor, ou está simplesmente a ensinar-nos novas maneiras de atuar enquanto aumenta a ansiedade e os sentimentos de inadequação? Porque se cada gesto nos deve levar para uma versão mais brilhante, mais saudável, mais calma e mais eficiente de nós mesmos, então até o bem-estar corre o risco de se tornar uma forma de controlo. A verdadeira revolução está realmente a abrandar. Hoje, o ato mais revolucionário não é ter a rotina perfeita, mas por vezes parar o hábito de nos tratarmos como projetos intermináveis de auto-aperfeiçoamento. Permitir que a beleza volte a ser algo que acompanha a vida, em vez de algo que a corrige e atualiza constantemente. Porque nem tudo tem de brilhar. Nem tudo tem de nos ensinar alguma coisa. A vida nem sempre pode ser apenas boas vibrações. E nem tudo precisa de nos tornar melhores. Por vezes, deveria ajudar-nos a respirar e dar-nos um pouco de paz quando mais precisamos.


























































