
Acordar cedo é um falso mito Não nos torna necessariamente mais produtivos
A tendência para ser uma pessoa matutina, ou seja, acordar cedo de manhã, é geralmente vista como um traço virtuoso, sinónimo de sucesso e um estilo de vida equilibrado e saudável. É uma crença profundamente enraizada, amplamente partilhada entre a população — em grande parte porque tem origens muito antigas. Nos últimos anos, esta crença tem sido reforçada pela crescente atenção dada à rotina matinal, alimentada pelas redes sociais. As razões são múltiplas. Em primeiro lugar, a experiência pandémica tornou o trabalho a partir de casa mais difundido em vários setores, especialmente na tecnologia. Neste contexto, os conteúdos motivacionais multiplicaram-se nas principais plataformas, aliando uma visão fanática do trabalho com a suposta necessidade de se tornar uma pessoa matutina. Recentemente, o Wall Street Journal também abordou a questão num artigo intitulado “4 a.m. Wake-Ups não são mais apenas para super-CEOs”, explicando que “na corrida pela produtividade”, as rotinas matinais estão a tornar-se cada vez mais extremas — mesmo entre os jovens. Essencialmente, esta tendência já não afeta apenas os trabalhadores das empresas de alto nível, mas também está a espalhar-se entre aqueles que poderiam facilmente prescindir dela. No entanto, como relata o Washington Post, a crença de que acordar cedo é inerentemente melhor decorre da ingénua suposição de que o oposto prejudicaria automaticamente os objetivos de carreira (ou mesmo de vida). Mas, na realidade, não é esse o caso, e sólidas bases científicas sustentam essa afirmação. Nos seres humanos, o sono é regulado em grande parte pelos chamados ritmos circadianos — os ciclos que governam vários processos fisiológicos ao longo de 24 horas, que são eles próprios influenciados pela resposta do corpo à luz e às trevas. Estes ritmos variam ligeiramente de pessoa para pessoa, e é precisamente por isso que os níveis de energia e fadiga flutuam ao longo do dia de maneiras que diferem para todos. É também por isso que as pessoas têm tendências inteiramente subjectivas para dormir em diferentes momentos do dia — uma característica que é geralmente bastante estável em cada indivíduo ao longo do tempo.
É melhor ser uma “pessoa matinal” ou uma “coruja da noite”?
A maioria das pessoas em todo o mundo fica algures entre ser “pessoas matinais” e “corujas noturnas” — os dois extremos definidos nos estudos do sono. Os primeiros tendem a precisar de ir para a cama cedo sem acordar tarde, enquanto os últimos são os que costumam ir dormir com mais calma e preferem acordar sem pressa. Conteúdos que promovem a ideia de que acordar cedo automaticamente faz de alguém uma pessoa ou profissional melhor carrega muitas vezes um juízo moral contra os madrugadores, como aponta a publicação norte-americana Vox. Um estudo realizado nos EUA e publicado em 2022 também mostrou que existem preconceitos negativos em relação às pessoas normalmente rotuladas como corujas noturnas. No entanto, em muitos casos, o esforço para acordar cedo pode não só ser fútil, mas pode até ter efeitos nocivos sobre os indivíduos, causando uma frustração acrescida. Paradoxalmente, as corujas noturnas que se obrigam a acordar cedo podem estar significativamente menos focadas — e, portanto, menos produtivas — nas primeiras horas do dia, precisamente porque o hábito de acordar é influenciado por fatores biológicos que não estão inteiramente sob controlo individual. Forçar-se a levantar-se cedo não transforma magicamente alguém que naturalmente não é uma pessoa matutina em alguém que está “biologicamente” inclinado a ser um, como salienta o nova-iorquino. Para apoiar uma rotina matinal, a revista norte-americana recomenda compreender e aceitar os hábitos naturais de vigília, especialmente porque tentar muito “funcionar melhor” pela manhã pode ser um tiro pela culpa se alguém estiver biologicamente mais inclinado a descansar. Em última análise, o nova-iorquino reitera que os nocturnos não são necessariamente menos virtuosos do que os matutinos — particularmente se tiverem a sorte de ter um trabalho flexível que lhes permita escolher quando acordar.























































