
Feio para o social, inadequado para nós: a autoestima na era digital Estamos a perder a guerra invisível entre a auto-estima e a ilusão da perfeição
Não é fácil dizer sinceramente: “Eu me amo” ou “Estou bem do jeito que estou”. Alguns passam a vida inteira a tentar chegar a esse ponto. A autoestima e a auto-aceitação são o resultado de vários fatores e experiências, moldados por jornadas flutuantes e desafiantes, bem como compromissos entre quem somos, quem queremos ser, e quem a sociedade espera que sejamos. É doloroso. Exaustivo. Cada vez mais complicado. Na era da digitalização e da conectividade constante, a autopercepção e o desenvolvimento da auto-estima são fortemente influenciados por dinâmicas socioculturais difundidas. Imagens editadas, filtros de beleza e poses cuidadosamente selecionadas criam uma ilusão de perfeição que é inatingível para a maioria das pessoas. Quando acrescentamos uma comparação social constante, é fácil perceber porque é que os sentimentos de inadequação estão a tornar-se mais generalizados, empurrando muitos para uma busca interminável por validação externa — ou, nos piores casos, para o burnout.
@quotedmind Social media shows only the highlights, but not the imperfections. #philosophy #hopecore #quotes #deepquotes original sound - Quotedmind
Teoria da Comparação Social: porque é que olhar para a vida dos outros é mau para nós
A internet está cheia de corpos e estilos de vida idealizados. Os influenciadores que dominam os nossos feeds parecem eternamente jovens, com rostos simétricos, pele impecável e corpos esculpidos e convencionalmente atraentes. As suas vidas, como retratadas nas redes sociais, parecem uma performance contínua — comida deliciosa, decoração elegante, roupas da moda e até momentos de tristeza ou doença parecem glamorizados. Quando mudamos o olhar destes vídeos para nós mesmos e para o nosso ambiente comum, a decepção, a inadequação e até a inferioridade nos consomem.
@jessica.stocker What are your thoughts?
original sound - Jessica Stocker
Isto alinha-se com a Teoria da Comparação Social, formulada pelo psicólogo Leon Festinger em 1954, que sugere que os indivíduos avaliam-se comparando-se com outros para ganhar um sentido de autodefinição e auto-estima. Festinger identificou dois tipos principais de comparação social: a comparação ascendente: que ocorre quando nos comparamos com pessoas que percebemos como superiores ou mais competentes num determinado campo; e comparação descendente, que ocorre quando nos comparamos com aquelas que vemos como menos competentes ou em pior situação. Enquanto o último tipo de comparação pode ajudar-nos a sentir-nos melhor sobre nós mesmos e a fortalecer a nossa autoestima, o primeiro, por outro lado, tende a gerar insatisfação e baixa autoestima. E é isso que acontece de forma amplificada com as redes sociais. A exposição constante à beleza filtrada e à perfeição engana o cérebro para que não consiga distinguir entre realidade e conteúdo editado, levando a autopercepção distorcida, insatisfação crónica e sentimentos profundos de inadequação.
O impacto das redes sociais na saúde mental e na auto-estima
Não é surpresa que numerosos estudos tenham encontrado uma forte correlação entre o uso excessivo das redes sociais e o aumento dos níveis de ansiedade, depressão e baixa auto-estima. Um estudo de 2023 descobriu que uma em cada sete raparigas entre os 16 e os 24 anos tinha pensamentos suicidas devido a comparações nas redes sociais, enquanto um relatório de 2024 do Dove's Self-Estima Project descobriu que 90% das raparigas com idades compreendidas entre os 10 e os 17 anos seguem pelo menos uma conta nas redes sociais que as faz sentir-se menos atraentes. Nos últimos anos, tem-se verificado um declínio preocupante dos níveis de auto-estima também em Itália, especialmente entre as gerações mais jovens. De acordo com uma pesquisa de 2025, 17,2% dos jovens italianos dizem ter uma auto-estima muito baixa, enquanto quase 50% sentem-se inadequados sobre o que vêem e lêem nas redes sociais. Além disso, 38,1% não estão satisfeitos com a sua aparência física.
@chantal.rdv Social media has been affecting my mental health, and I let it. I don’t want validation through likes and followers. I just want to like myself again.
fragile - favsoundds
A procura interminável de validação externa
Os padrões de beleza já existiam muito antes das redes sociais. No entanto, a comparação constante e o comportamento de procura de aprovação online criam um ciclo vicioso de insegurança e dependência emocional. Vivemos para curtidas, esforçando-se para imitar a perfeição apresentada no Instagram, numa cultura altamente visual e virtual onde as imagens falam mais alto que as palavras. De espelhos a chamadas Zoom e vídeos TikTok, somos constantemente confrontados com os nossos próprios reflexos, remodelando a nossa autopercepção. Como explica Heather Widdows, professora de filosofia da Universidade de Warwick: “O foco nos corpos e nas imagens mudou o nosso senso de identidade. A nossa aparência tornou-se “quem somos”. Isto é radicalmente diferente das gerações anteriores, onde a identidade e a autoestima eram mais sobre carácter ou papéis.” Ao mesmo tempo, estamos a perder uma percepção precisa da beleza e da imperfeição. Hoje, até mulheres como Sydney Sweeney e Margot Robbie são rotuladas como “médias” por certas comunidades online, elevando o nível de padrões de beleza irrealistas e alimentando ainda mais complexos de inferioridade.
Beleza, feiura e auto-estima na era digital
Quem decide quem é bonito e quem não é? A beleza não é estática, objetiva ou universal. A História ensina-nos que os padrões estéticos mudam ao longo do tempo e através das culturas: das formas suaves e abundantes admiradas durante o Renascimento aos corpos esbeltos da moda contemporânea. Na era digital, no entanto, o poder de definir a beleza mudou de artistas e filósofos para algoritmos e influenciadores. Plataformas digitais orientadas por SEO como Instagram e TikTok criam padrões de beleza homogéneos, muitas vezes irrealistas, reforçados por filtros, edição de fotos e modelos idealizados muito distantes da realidade quotidiana. Estas plataformas favorecem rostos simétricos, pele lisa e corpos esculpidos, conteúdos esteticamente recompensadores que se conformarem a estes critérios. Isso reforça a crença de que apenas certos traços físicos são desejáveis, excluindo a diversidade e criando uma hierarquia implícita de valor baseada na aparência. Longe de filtros e fotos cuidadosamente colocadas, não há espaço para o corpo humano real, percebido como “imperfeito”, nem para aqueles considerados feios. No entanto, como Moshtari Hilal explora no seu livro FEIÚRIA, a feiura é apenas uma construção cultural e social, frequentemente usada para marginalizar identidades e corpos que não estão em conformidade com os padrões de beleza ocidentais.
Como reconstruir a auto-estima?
Para restaurar um sentido saudável de auto-estima, é essencial reconhecer a natureza ilusória das redes sociais e resistir ao impulso de nos compararmos com padrões irrealistas. Construir auto-aceitação requer atenção plena, autocompaixão e uma abordagem crítica ao conteúdo digital que consumimos. Em vez de buscar a validação de um público externo, devemos priorizar o autocuidado, as conexões da vida real e o crescimento pessoal. Mas como? Alguns recorrem à terapia, enquanto outros praticam a desintoxicação digital. Cada vez mais jovens estão a trocar os seus smartphones por dumbphones — telemóveis simples com funcionalidades digitais limitadas — para recuperar o tempo que, de outra forma, gastariam a navegar ou a comparar-se com as imagens polidas no Instagram. O resultado? Muitos relatam sentir-se melhor e mais confiantes quanto à sua aparência.

























































