
“O verdadeiro sucesso de uma fragrância está no equilíbrio” Entrevista a Vanina Muracciole, perfumista independente da Jeroboam

“Sou a Vanina Muracciole, uma perfumista francesa sénior com sede em Paris”, direta e direta ao ponto. Foi assim que começou a nossa entrevista. Conhecemo-la através da Jeroboam, a casa de fragrâncias independente dedicada a extractos de perfumes, onde trabalha desde 2014 ao lado do fundador François Hénin. Uma colaboração a quatro mãos que começou com uma assinatura olfativa distinta: a famosa base almiscarada de Origino. Por ocasião do lançamento da nova fragrância, Eliksiro, sentámo-nos com ela para uma conversa. Aqui está o que ela nos disse.
Entrevista à Perfumista Independente Vanina Muracciole
O que significa ser perfumista hoje, num mercado saturado de novos lançamentos e cada vez mais influenciado pelas redes sociais?
Sou um perfumista independente então para mim ser perfumista hoje significa, acima de tudo, continuar a ser um criador num ambiente acelerado. O mercado está saturado de novos lançamentos, e as redes sociais podem acelerar o sucesso de uma fragrância tão rapidamente quanto pode fazer com que ela seja esquecida. Neste contexto, o verdadeiro desafio é não sucumbir à busca constante da gratificação instantânea. Um perfumista não cria simplesmente um produto; conta uma história, transmite uma emoção e procura evocar uma memória. As tendências são importantes porque refletem as expectativas de uma época, mas não devem substituir a visão criativa.
Quando começamos a criar uma fragrância, começamos com uma imagem, uma emoção, uma matéria-prima ou uma história?
Não existe uma maneira única de criar uma fragrância. Cada projeto tem o seu próprio ponto de partida. Pode ser uma emoção, uma memória, um encontro, um lugar, ou mesmo uma matéria-prima particularmente inspiradora. Pessoalmente, as cores também são muito importantes. Quando penso numa ideia nova tenho em mente as cores que traduzo em matérias-primas.
Nos materiais de imprensa fala de uma “poção mágica”. O que faz do Eliksiro uma fragrância capaz de evocar esta imagem?
Com o Eliksiro, queria recapturar aquele aspeto quase alquímico da perfumaria. Cada criação é concebida como uma mistura preciosa de ingredientes capazes de evocar uma emoção, revelar uma faceta de si mesmo, ou transportar o utilizador para um reino imaginário. Uma poção mágica não é apenas uma mistura de ingredientes; é uma promessa, uma experiência e um toque do sonho. A Eliksiro incorpora esta visão: fragrâncias concebidas como elixires contemporâneos, onde a criatividade, as matérias-primas excepcionais e a emoção se unem para criar algo que transcende a simples função do perfume.
Houve um momento preciso durante a construção do Eliksiro em que soube que a fórmula estava certa?
Para mim, criar uma fragrância é um processo de maturação que envolve ensaios, dúvidas, ajustes e às vezes até dúvidas. No entanto, há um momento muito especial em que a fragrância deixa de ser uma fórmula e se torna auto-evidente. É quando a emoção que procurávamos está finalmente lá, intacta, e resiste ao teste do tempo, às mudanças e às várias avaliações. Nesse momento, já não procuramos corrigir ou acrescentar nada: a fragrância conta exatamente a história que queríamos contar.
Qual aspecto da fragrância acha que vai surpreender quem mais a usa?
Acho que o que vai surpreender quem mais usa esta fragrância é a sua nota de fundo. À medida que a composição evolui elegantemente ao longo do seu desenvolvimento, revela gradualmente uma assinatura inesperada construída em torno de madeiras de framboesa e âmbar. A framboesa traz uma faceta vibrante, indulgente e luminosa, enquanto as madeiras âmbar conferem-lhe profundidade, sensualidade e modernidade. Esta combinação cria um rasto que é ao mesmo tempo viciante e sofisticado, deixando uma impressão duradoura sem nunca ser avassalador.
Existem ingredientes que acha que são particularmente os seus que se repitam com frequência nas suas criações?
Sim, o Bois de Gaiac, o cardamomo e o ambroxan.
Tem a impressão de que as novas gerações estão a desenvolver uma relação diferente com a fragrância em comparação com o passado?
Sim, sem dúvida. As gerações mais novas têm uma abordagem mais descontraída e desinibida do perfume. Enquanto as pessoas costumavam escolher um perfume de assinatura que usariam durante anos, os consumidores de hoje gostam de explorar, colecionar e mudar o seu perfume para se adequar ao seu humor, à estação ou à ocasião. As redes sociais também transformaram a forma como descobrimos fragrâncias. Isso tornou a cultura da fragrância mais acessível e despertou a curiosidade de um público mais jovem, mais bem informado e mais exigente. No entanto, o que não mudou é a procura da emoção. Por trás das tendências e do ritmo acelerado de comunicação, o perfume continua a ser um objeto profundamente pessoal. Acima de tudo, as gerações mais novas procuram criações que lhes permitam expressar a sua personalidade e contar a sua própria história.
Fala-se muito hoje em fragrâncias “altas” com forte projeção e alta longevidade. Será esta uma procura genuína do consumidor ou uma consequência da cultura das redes sociais?
Acho que são as duas coisas. Os consumidores sempre procuraram fragrâncias que duram, já que a longevidade é muitas vezes vista como uma medida de qualidade e valor. Ninguém quer investir numa fragrância que desaparece depois de uma hora. No entanto, as redes sociais amplificaram claramente este fenómeno. Hoje, termos como 'silagem', 'projeção' ou 'performance' tornaram-se centrais para o discurso em torno da fragrância. Por vezes avaliamos uma criação quase como se fosse um produto técnico, medindo a sua força antes mesmo de considerar o seu impacto emocional ou a sua composição. Pela minha parte, acredito que uma grande fragrância não se define apenas pela sua força. O verdadeiro sucesso reside no equilíbrio: estar presente o suficiente para deixar uma impressão memorável, mantendo a elegância, a nuance e o requinte. A silagem deve acompanhar uma história, não substituí-la.
Que tendências olfativa acha que vão definir os próximos anos?
Acredito que as fronteiras entre as categorias continuarão a desfocar-se. Os consumidores escolhem agora uma fragrância pela forma como ela os faz sentir, e não pelo facto de ser comercializada como feminina ou masculina, ou mesmo para a sua família olfativa. Finalmente, matérias-primas excepcionais, assinaturas originais e criações significativas desempenharão um papel cada vez mais importante num mercado onde a identidade está a tornar-se a verdadeira raridade.






















































