Estamos cansados de ter sempre de atender o telefone? Como o problema da hiper- disponibilidade impacta as nossas vidas e quando é hora de dizer basta

“Estava online, não respondeu, mas teve tempo de postar uma história no Instagram. Isso é desrespeitoso”: alguma vez recebeu uma mensagem como esta? Se a resposta for sim, e isso o fez sentir culpado, podemos ajudar a esclarecer esse comportamento, que caracteriza as relações modernas e assola o namoro contemporâneo. Ao interagir com alguém, surgem muitas questões. Quem deve dar o primeiro passo? Quanto tempo deve esperar antes de entrar num novo relacionamento depois de um rompimento? E assim por diante. No entanto, há um tópico específico que tem incendiado as redes sociais recentemente: o fenómeno da hiper-disponibilidade ou disponibilidade tóxica. Isto refere-se à dinâmica que surge quando escolhemos nos afastarmos da comunicação porque não temos vontade de responder ou — muito simplesmente — porque não é uma prioridade nesse momento. Se alguém na sua vida, seja um parceiro, um amigo ou o seu chefe, espera que esteja sempre disponível e acredita que é errado que responda quando lhe apetece, também pode ser vítima deste mecanismo.

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Hiperdisponibilidade segundo um psicólogo

A psicóloga e criminologista Sara Cutrale explica que o termo hiper-disponibilidade refere-se à crescente expectativa na sociedade contemporânea de estar constantemente disponível e acessível, sobretudo em contextos laborais e sociais. Este fenómeno é hoje amplificado pelo uso generalizado de smartphones, e-mails, plataformas sociais, e ferramentas digitais, que permitem que as pessoas sejam contactadas a qualquer hora, dia ou noite. A questão fundamental é o imediatismo. A conectividade constante do mundo online penetra no mundo real, tornando a fronteira entre os dois cada vez mais turva e difícil de distinguir. “Os estímulos chegam instantaneamente, gerando a expectativa de uma resposta igualmente rápida. Isto conduziu ao desenvolvimento de uma espécie de cultura de urgência, onde se percebe a necessidade de responder imediatamente, comprometendo muitas vezes a nossa paz de espírito.” Há dois lados neste debate: de um lado, aqueles que sentem ansiedade sobre a hiper-disponibilidade, e do outro, aqueles que sentem frustração e irritação quando não recebem feedback dentro do prazo esperado. “Espalhou-se a ideia de que a disponibilidade constante é um sinal de atenção e compromisso, com alguns a defenderem que 'pode sempre encontrar um minuto'”, acrescenta Cutrale. “No entanto, o que muitas vezes é esquecido é que responder imediatamente a todos os estímulos externos pode criar um fardo psicológico, que pode ser mais stressante para uns do que para outros. A expectativa de estarmos sempre prontos e reativos pode pesar muito no nosso bem-estar mental, uma vez que deixa de considerar que encontrar 'um minuto' para cada interação pode ser muito mais cansativo do que parece, tanto emocional como cognitivamente.”

@libnifortuna Stop being available for everyone

A disponibilidade não é um problema limitado à internet. O especialista refere-se à teoria do stress do papel (Kahn et al., 1964), que explica que os indivíduos enfrentam conflitos de papéis onde as expectativas do trabalho, da vida pessoal e a necessidade de estar sempre conectado podem sobrecarregar os recursos cognitivos e emocionais. Outra teoria relevante é a que discute o burnout (Maslach & Jackson, 1981), que está intimamente relacionado com a hiperdisponibilidade, remetendo aos conceitos de hiperconexão e pressão social, ambos amplificados pela tecnologia moderna e potencialmente levando ao estresse crônico e ansiedade. O burnout descreve um estado de exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal, neste caso causado pelo prolongado stress social/profissional e pelas expectativas dos outros.

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Offline ou online? A vida e a sociedade em rede

O conceito de “onlife” enfatiza o aprofundamento da interconexão entre as nossas vidas digital e física, tornando obsoletas as distinções entre online e offline. Existem inúmeras teorias sociológicas que tentam apreender esta nova realidade, que estão em constante evolução. Por exemplo, podemos citar o conceito de “sociedade em rede” desenvolvido por Manuel Castells. O sociólogo descreve a sociedade contemporânea como uma “sociedade em rede”, onde as relações sociais, económicas e culturais são cada vez mais mediadas pelas tecnologias digitais. Segundo Castells, as redes informáticas não são apenas infraestruturas técnicas mas também espaços sociais onde se constroem identidades, trocam informações e são geradas novas formas de poder. Parece que o espaço físico e material fundiu-se com o imaterial, levando-nos a acreditar que já não existe qualquer grau de separação entre o nosso eu digital e o verdadeiro. Segundo a psicóloga: “Hoje, muitos jovens da Geração Z passam grande parte das suas atividades a pensar constantemente em como e quando partilhá-las nas redes sociais, preocupando-se mais em mostrar a sua vida aos outros do que vivê-la autenticamente. Muitos jovens, aliás, frequentam viagens, concertos, ou festas com uma abordagem quase inteiramente online, focada na vertente social do evento e não no próprio momento. Por vezes, a excitação por estas experiências não decorre de um interesse genuíno mas do desejo de mostrar aos outros que estão a fazer algo importante ou interessante. Desta forma, o gozo pessoal dá lugar à busca da aprovação externa. Esta confusão entre a vida real e a virtual corre o risco de alienar os jovens da própria realidade, levando-os a perder o contacto com o presente e potencialmente levar a fenómenos de desrealização. Na verdade, quando a vida vivida se torna cada vez mais subordinada à sua representação online, corremos o risco de perder o verdadeiro significado da experiência e a ligação à realidade tangível.”

Aspectos positivos da disponibilidade excessiva

Por detrás do fenómeno da disponibilidade excessiva, poderão também existir alguns aspectos positivos. A Cutrale identificou algumas, como a eficiência e a rapidez na comunicação, porque estar sempre disponível permite respostas rápidas aos pedidos, rápida resolução de problemas, e a manutenção de fluxos de trabalho constantes, potencialmente melhorando a produtividade. Da mesma forma, este fenómeno pode fomentar a melhoria das relações profissionais e sociais, uma vez que a disponibilidade contínua pode reforçar a confiança e a colaboração entre colegas ou com clientes, demonstrando fiabilidade. No entanto, realisticamente, é improvável que um fenómeno tão stressante seja genuinamente produtivo e benéfico a longo prazo.

Aspectos negativos da disponibilidade excessiva

Do lado negativo, surgem questões significativas como a sobrecarga mental e o stress. A disponibilidade constante cria uma forte pressão psicológica que alimenta a ansiedade, o stress e uma dificuldade crescente de desconexão. Além disso, como explica o médico, esta condição leva a uma redução da qualidade do tempo livre, uma vez que interrupções contínuas das notificações e mensagens impedem as pessoas de desfrutar plenamente dos momentos de regeneração mental, afetando negativamente o descanso e as relações pessoais. A hiperdisponibilidade também pode levar ao vício digital, dificultando a desconexão de smartphones, redes sociais e e-mails, criando um ciclo contínuo de dependência. Outro efeito negativo poderia ser a indefinição das fronteiras entre a vida pessoal e profissional quando este fenómeno ocorre no local de trabalho. Faz com que as pessoas se sintam obrigadas a estar disponíveis mesmo fora do horário de trabalho, com graves repercussões no seu bem-estar mental e físico. Em suma, a disponibilidade excessiva pode oferecer algumas vantagens em termos de ligação e oportunidade, mas apenas se gerida com equilíbrio.

@psicologaia_ 5 CONSIGLI BASATI SULLA SCIENZA PER GESTIRE LO STRESS Fonti: American Psychological Association (APA) Per domande o curiosità lascia un commento #psicologia #psicologa #stress #scienza #gestionestress suono originale - Dott.ssa Gaia Cavalleri

Dicas sobre como melhorar a etiqueta digital

Nenhum de nós tem regras ou orientações precisas para ser o “cidadão digital” perfeito, e fazer parte de uma comunidade online está a tornar-se cada vez mais complexo. Como explica o psicólogo, melhorar o nosso comportamento — tanto na vida quotidiana como como membros da comunidade digital — requer consciência e respeito pelos outros. “O que eu recomendaria aplica-se igualmente tanto à vida digital como à vida real: ouvir ativamente os outros, dar sincera atenção a quem fala, evitar interromper, e mostrar interesse genuíno. Em suma, pratique a escuta ativa empática tanto quanto possível. Isso ajuda a fortalecer as relações e faz com que os outros se sintam valorizados. Além disso, é importante usar uma linguagem respeitosa, pois as palavras têm um forte impacto. Recordemos também que, estando expostos às redes sociais todos os dias, devemos evitar participar em qualquer forma de cyberbullying. Em vez de nos envolvermos em dinâmicas negativas, como insultos ou humilhação pública, deveríamos promover um diálogo positivo e construtivo”.

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