
O pescoço de Chiara Ferragni e a obsessão pelo envelhecimento feminino Porque é que os corpos das mulheres continuam a estar sob escrutínio
Uma fotografia postada no Instagram foi suficiente para reacender um guião que conhecemos muito bem. Desta vez o alvo foi o pescoço de Chiara Ferragni. Entre os comentários que surgiram em alguns dos seus posts, houve vários que não falavam do seu trabalho ou dos seus projetos, mas sim das rugas e sinais de envelhecimento visíveis no seu pescoço. Há quem escreva que “mostra mais idades”, quem recomendou tratamentos de beleza e quem usou a sua aparência como motivo de ridículo. Resumindo: mais uma vez o corpo de uma mulher foi transformado num fundamento de juízo público. Não é a primeira vez que isso acontece com Ferragni. Ao longo dos anos tem sido criticada pelo seu peso, pela gravidez, pelo parto, pelas estrias, pelo rosto sem maquilhagem e até pela forma como cria os filhos. Desta vez, porém, o alvo é algo inevitável e natural, nomeadamente o envelhecimento.
O caso Chiara Ferragni: nem somos livres para envelhecer
Vivemos numa sociedade que continua a pedir às mulheres que pareçam eternamente jovens. Por um lado, celebra-se graciosamente o conceito de envelhecimento, ou seja, a ideia de envelhecer naturalmente; por outro lado, criticam-se as rugas, os cabelos grisalhos, a pele menos tonificada e qualquer sinal de envelhecimento. A mensagem que vem é contraditória: temos de aceitar a idade avançada, mas sem mostrar as consequências. O pescoço, em particular, é um dos primeiros locais do corpo onde a pele perde elasticidade. É um processo fisiológico, devido à diminuição do colagénio e elastina, que afeta qualquer pessoa, independentemente da fama, património ou tratamentos estéticos. É difícil imaginar um homem a receber a mesma atenção por causa de uma ruga no pescoço. É claro que os homens também podem ser vítimas de vergonha corporal, mas o controlo social sobre o aspecto feminino continua a ser muito mais intenso.
Numerosos estudos demonstram que as mulheres são julgadas mais com base na estética do que os homens, tanto no quotidiano como nos espaços digitais i, o seu valor continua a estar associado, pelo menos em parte, à capacidade de parecerem jovens, bem cuidadas e em conformidade com os padrões de beleza dominantes.
O efeito social
As redes sociais amplificam este fenómeno. As plataformas recompensam imagens perfeitas, filtros, pele lisa e corpos livres de imperfeições. Quando uma fotografia mostra um detalhe mais autêntico, como uma ruga ou um sinal de idade, esse detalhe torna-se imediatamente o centro da conversa. É como se não estivéssemos habituados a ver corpos reais. O paradoxo é óbvio. Há anos que falamos de positividade corporal e aceitação corporal, mas assim que uma mulher famosa mostra um sinal natural de envelhecimento, fica sobrecarregada por observações que sugerem, mais ou menos explicitamente, que deveria tê-lo escondido. Esta pressão tem consequências concretas.
@whatzaraloves6 Can you tell what this week’s taboo on the bus is… for real though, the most natural thing is TO AGE
Segundo várias pesquisas, a insatisfação corporal afeta mulheres de todas as idades e tende a aumentar precisamente com o passar dos anos, quando a comparação com ideais estéticos inatingíveis se torna ainda mais difícil. Não é por isso surpreendente que o mercado de tratamentos anti-envelhecimento continue a crescer, alimentado também pela ideia de que o envelhecimento é um problema a resolver e não uma fase natural da vida. Claro que todos são livres para recorrer à medicina estética ou não, mas o problema surge quando uma escolha pessoal deixa de ser tal e passa a ser pressão social. Se uma mulher decidir não intervir na sua aparência, não deve ser ridicularizado. Se ela decidir fazê-lo, não deve ser acusada de ser “fiel”.




















































