
Catcalling e além: crónica de uma liberdade negada A Rotina do Medo
Acordar, levantar da cama, escolher um outfit. Um ato trivial e quotidiano. Mas para muitas mulheres, todas as manhãs transforma-se numa estratégia de defesa. “Como posso vestir-me para evitar atenções indesejadas?” , “Este top é demasiado revelador?” , “Melhor ir com calças, talvez eu evite os assobios.” Estas perguntas não devem fazer parte da manhã de ninguém. E, no entanto, são. São para milhões de pessoas socializadas como mulheres que, antes mesmo de saírem, já têm de se envolver numa forma de autodefesa preventiva. O paradoxo? Os homens não se fazem estas perguntas. Saem, vestem o que os faz sentirem-se confortáveis, tomam um café, vão trabalhar. Ninguém os julga, ninguém os segue, ninguém assobia ou comenta o seu corpo.
Não é um elogio, é um assédio
No nosso país, o catcalling continua a ser demasiado frequentemente subestimado. Por vezes até defendido. “Anda lá, é só um elogio.” Não. Assobios, olhares intrusivos, comentários gritados de um carro que passa não são elogios: são atos de dominação, formas “pequenas” (mas constantes) de violência quotidiana. E o facto de estarem normalizados, justificados até pelo mito do “amante italiano latino”, faz parte do problema. Um estudo do ISTAT de 2018 revelou que mais de 60% das mulheres italianas com idades entre os 14 e os 65 anos sofreram assédio verbal ou físico em locais públicos. Segundo a Plan International, 58% das raparigas em Itália mudam de rota ou horário por medo de serem assediadas. 40% sentem-se inseguras mesmo andando na rua.
Vestir-se para desaparecer
Com o tempo, o meu guarda-roupa mudou. As saias desapareceram, por isso as cores vivas. Comecei a usar roupas soltas e neutras, quase como se tentasse ficar invisível. Mas ajudou? Não. Porque o problema não são as roupas. Não é a maneira como andamos, falamos, sorrimos ou nos movemos. O problema é como alguns homens foram ensinados a pensar no corpo feminino como algo para comentar, possuir ou invadir. Portanto, a pergunta não deveria mais ser: “Como posso evitar o catcalling?” , mas sim: “Porque é que alguém ainda se sente no direito de o fazer?”
Responder é um ato político
A certa altura, parei de abaixar a cabeça. Comecei a responder. Com um olhar frio, com um “isso é nojento”, com um “posso ajudar-te?” ou, se necessário, com um dedo médio bem colocado. Nem sempre funciona, e nem toda a gente tem vontade de o fazer, e está perfeitamente bem. Mas quando isso acontece, os leões da calçada que um segundo antes se sentiam reis da cena, ficam sem palavras. O poder muda. E talvez, da próxima vez, pensem duas vezes.
Da raiva ao medo
Hoje posso falar disso num tom mais calmo, mas nem sempre foi assim. Houve momentos em que a própria ideia de sair sozinho me dava ansiedade. Não queria ser olhado. Até evitava espaços públicos, preferia ficar trancado lá dentro. Não era só desconforto: era o medo. Uma espécie de paranóia que nos tira o fôlego e a nossa liberdade. Segundo um estudo do Parlamento Europeu, uma em cada duas mulheres na Europa sofreu assédio sexual em espaços públicos, e muitas relatam sofrer o seu impacto psicológico há anos. Porque o catcalling não é uma piada: é um lembrete de que, lá fora, pode não estar seguro.
Precisamos de educação, não de silêncio
Não somos nós que precisamos de mudar, encobrir ou proteger-nos. É a cultura da possessão e da masculinidade tóxica que tem de ser desmantelada. E para isso, precisamos de educação. Não basta dizer “não sejas idiota na rua”, precisamos ensinar consentimento, respeito e empatia. Temos de explicar que os corpos de outras pessoas nunca são propriedade pública. Que todos têm direito a viver em espaços partilhados pacificamente. A educação sexual e emocional nas escolas, por exemplo, não é um capricho ideológico. É uma forma de prevenção, um investimento num futuro onde ninguém se sente legitimado para assobiar, gritar ou invadir. Porque o respeito tem de ser construído. E o silêncio, em vez disso, destrói-o. Para todos nós.





















































