O Silêncio que Fala: Diana Anselmo Entre Arte e Ativismo Um artista que explora o corpo, a identidade e a linguagem

Diana Anselmo é artista visual, performer surda e ativista cuja prática se desenvolve na intersecção da linguagem, corpo e olhar. Bilingue em LIS (Língua Gestual Italiana) e Italiano, estreou-se em 2021 com a sua primeira performance, Self-Portrait in 3 Acts, que continua a ser apresentada em inúmeros festivais italianos e internacionais, incluindo na Sérvia, Suíça, Portugal, Alemanha e Chipre. A sua estreia internacional teve lugar em Berlim, onde participou no Le Sacre du Printemps (2022) de Xavier Le Roy. Recentemente, realizou a sua primeira exposição individual, Je Vous Aime, na Fundação Sandretto Re Rebaudengo (2024) e está agora representado pela Galeria Eugenia Delfini. Diana Anselmo é também uma das fundadoras da Al.Di.Qua. Artistas, a primeira associação europeia de e para artistas deficientes, com a qual participou em vários festivais europeus na Suíça, Suécia, Holanda e Letónia. Além disso, é o membro mais novo do Conselho Consultivo Cultural do British Council.

Em novembro de 2023, durante o Open Day da Scuola Piccola Zattere, programa comissariado por Irene Calderoni, espaço sem fins lucrativos de investigação e formação continuada no campo expandido das artes contemporâneas, apresentou o Self-Portrait in Three Acts (2021), uma palestra-performance que explora o tema do olhar a partir de três pontos de vista distintos: o pessoal — questionar o que significa habitar um corpo com deficiência; o subjugado - abordar a intrusividade dos olhares alheus; e finalmente, o reapropriado - invertendo a dinâmica, capacitando o sujeito a determinar a sua própria definição de identidade. Diana Anselmo está atualmente a realizar uma bolsa de estudos na Scuola Piccole Zattere, dando continuidade à sua investigação na intersecção da linguagem, corpo e performance. O artista utiliza o gesto como uma ferramenta expressiva que transcende os limites da comunicação verbal, transformando o silêncio num espaço rico de significado.

A Poética do Silêncio e o Diálogo com John Cage

Um elemento chave na obra de Diana Anselmo é o conceito de silêncio — não como vazio, mas como um espaço de potencial expressivo. Uma referência cultural crucial para a compreensão desta poética é a Peça de Teatro nº 1 de John Cage, que em 1952 redefiniu as fronteiras da arte combinando música, dança, poesia e projeções visuais num evento performativo simultâneo. Assim como Cage explorou o silêncio como um recipiente de sons potenciais, o artista transforma o silêncio num espaço onde o corpo comunica para além das palavras. Em Theatre Piece nº 1, Cage revolucionou o conceito de performance ao quebrar as barreiras entre as artes tradicionais e introduzir o silêncio como elemento primário de reflexão e interação. A sua composição histórica, que carece de um guião pré-determinado, impactou profundamente a cena artística contemporânea, oferecendo uma experiência que não era apenas de escuta ou observação passiva mas convidou o público a envolver-se com o silêncio como uma música em evolução, cheia de possibilidades. A performance de Cage nunca foi apenas uma pausa ou ausência mas um espaço vivo onde todos os elementos — desde a respiração do intérprete às reações do público — passaram a fazer parte do próprio evento. Desta forma, o silêncio de Cage é carregado de significado, tornando-se terreno fértil para uma compreensão mais profunda do mundo sonoro e da interação entre indivíduo e ambiente.

Monumentum DA: A Dança como Acto Político

A colaboração entre Cristina Rizzo e Diana Anselmo no Monumentum DA enquadra-se nesta exploração da liberdade expressiva do corpo. Para Rizzo, a dança pertence a todos, independentemente das capacidades físicas ou do contexto social. A ligação com a homeostase — princípio vital que regula os impulsos do corpo — enfatiza que a dança não é uma arte reservada a poucos mas uma manifestação universal de estar vivo. O encontro com Diana Anselmo expande esta perspectiva, demonstrando como o corpo pode comunicar para além das palavras. A presença do LIS, uma linguagem visual e corporal, não é apenas um elemento estético mas um ato de inclusão que quebra barreiras linguísticas. No entanto, a performance vai além da mera tradução de signos em movimentos: explora o ponto em que o gesto se liberta do significado convencional para se tornar pura expressão. Nesta performance, o LIS manifesta-se através de uma interpretação gestual que não representa apenas palavras mas transforma cada signo num ato corporal que ganha vida. Um exemplo visual desta prática é a fusão entre os movimentos fluidos do corpo e o uso da linguagem gestual para representar conceitos abstratos como liberdade e luta. Não é uma mera tradução mas uma transmutação da intenção em movimento — um ato político que sublinha o poder da comunicação não-verbal. Assim, a dança torna-se uma ferramenta de libertação, capaz de desmantelar as barreiras impostas pela linguagem verbal e afirmar a inclusão como valor fundamental.

As características comuns entre a Peça de Teatro nº 1 e o Monumentum DA residem precisamente na busca da liberdade expressiva e no uso do corpo como instrumento comunicativo. Cage explora o silêncio como um espaço de potencial sonoro, enquanto no Monumentum DA, o corpo em silêncio torna-se portador de significados não-verbais. Aqui, a dança torna-se uma ferramenta política não só porque inclui diversos corpos e linguagens mas porque desafia as hierarquias da comunicação, provando que a expressão humana não depende das palavras. Num mundo dominado pela velocidade da informação e pela linguagem verbal, esta performance afirma o direito de comunicar através da presença física. O corpo, livre dos constrangimentos da gramática, torna-se um manifesto vivo de autodeterminação, capaz de derrubar normas culturais que ditam quem pode falar e quem deve permanecer em silêncio.

A Exposição DeafnotDead em Roma

O compromisso de Diana Anselmo em tornar visível a dinâmica da exclusão está também refletido na exposição deafnotdead na Galeria Eugenia Delfini, em Roma. Criada em colaboração com o Institut National de Jeunes Sourds (INJS) em Paris, a exposição apresenta documentos fotográficos de arquivo sobre os quais o artista intervém para deslocar o foco daqueles historicamente vistos como “pacientes” para aqueles que exerceram práticas restritivas. Ao aplicar goma de mascar nos rostos de sujeitos surdos retratados ao lado de especialistas, o artista destaca a marginalização que suportaram: a goma de mascar — um ato cotidiano e trivial — é colocada sobre os rostos dos indivíduos para desumanizar aqueles historicamente forçados ao silêncio e à marginalização, protegendo ao mesmo tempo a sua identidade. Restaura um rosto que já não é definido por práticas opressivas mas por uma nova visibilidade. A obra relaciona-se com a história de Hector-Victor Marichelle, foneticista activo entre os séculos XIX e XX e fundador do Laboratoire de la Parole e da Clinique de l'Audition — instituições criadas para reafirmar a supremacia da linguagem falada.

Com esta intervenção artística, Diana Anselmo não só critica práticas exaustivas passadas mas também convida à reflexão sobre o presente, propondo uma linguagem visual que devolva a dignidade aos corpos marginalizados. Através da performance e da arte visual, o seu trabalho demonstra que o silêncio pode tornar-se um espaço de resistência e autodeterminação. Se a peça de teatro nº 1 de Cage transformou o silêncio em terreno fértil para a expressão artística, a obra do artista o transforma num espaço de reclamação — um grito que não precisa de palavras para ser ouvido.

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