Ainda temos gosto pessoal? Os riscos da bolha social e do 'tasteslop'

Houve um momento — depois do alegre caleidoscópio das três décadas que antecederam os anos noventa — em que as casas de cor neutra pareciam elegantes. Depois tornaram-se um padrão. Aconteceu também com os livros de mesa de café, os sapatos Tabi da Maison Margiela, as mesas de travertino, os sacos de lona e os lustres de grife. Todos os objetos que, separadamente, contavam algo sobre aqueles que os tinham escolhido, mas que hoje todos parecem pertencer a uma mesma pessoa indefinida. Quanto mais são replicados, menos são capazes de comunicar algo verdadeiramente pessoal. Emily Segal, previsional de tendências e fundadora da consultora Nemesis Global, deu um nome a este fenómeno: tasteslop. Literalmente, puré de sabor.

O que é o tasteslop

A expressão é inspirada num moodboard gerado pela IA como exemplo de “bom gosto”, com um significado que obviamente tem a ver com o que é único: encontramos um carrinho Rimowa, uma chaleira de design com um pescoço fino, um livro de Dieter Rams, um sabonete de mãos Aesop. Todos estes elementos são extraídos do contexto que os tornou significativos e potencialmente infinitamente recombinados: aparentemente parecem refinados e cuidados, na realidade carecem de substância. Também porque, como escreve Segal, “o gosto não é uma propriedade intrínseca dos objetos individuais. Pelo contrário, é uma relação socialmente validada entre objetos, pessoas, histórias, cenas e timing.” O tasteslop nasceu justamente quando esta relação se desfaz, e apenas os seus símbolos permanecem. Um mecanismo que não é novo, mas que tem sido amplificado tanto pelas redes sociais como pela IA, ou melhor, pela forma como as redes sociais foram concebidas. Aliás, os algoritmos tendem a premiar o que já é reconhecível, enquanto a experimentação exige tempo, investimentos e uma certa vontade de arriscar. O resultado é um ecossistema em que as imagens circulam a uma velocidade nunca antes vista, mas cada vez mais parecem ser geradas pela mesma gramática visual.

@blakefinucane

Tasteslop is a real word (and explains a lot)

LUXURY - Baby thug

Os espaços partilhados do gosto

Entretanto, os modelos que procuramos inspiração durante muito tempo também mudaram profundamente. Durante décadas revistas como Vogue, Harper's Bazaar ou i-D têm representado lugares de experimentação, onde fotógrafos, estilistas e diretores criativos podiam construir imaginários destinados a influenciar a cultura visual muito além do mundo da moda. Hoje, esse sistema mudou profundamente. Uma parte crescente dos investimentos está focada na distribuição de conteúdos e na economia criadora, priorizando imagens que funcionam bem nas plataformas em detrimento de produções pensadas para surpreender, dividir ou abrir novos caminhos. É difícil determinar se o gosto se tornou realmente um simulacro de si mesmo; é mais fácil observar como os espaços partilhados em que poderia tomar forma foram reduzidos.

@nobestpractices Sorry bestie, but your faves (the Tabi boots, the Rimowa luggage, the Togo sofa) have been reduced to tasteslop. Here is what that means for brands and consumers. #brandstrategy #taste #tabi original sound - Alex G

A inteligência artificial pode ser treinada no bom gosto?

Mas o que significa ter bom gosto? Para Segal, exercer três competências diferentes: a primeira é o discernimento, ou seja, saber argumentar porque é que algo funciona melhor do que outra coisa. A segunda é saber reconhecer referências culturais e perceber quando uma estética está realmente a introduzir algo novo. O terceiro é um componente profundamente pessoal que torna o gosto difícil de imitar (o que os falantes de inglês chamam de idiossincrasia). Sem dúvida, todas essas são qualidades mal conciliadas com uma lógica feita de padrões repetíveis. Não é surpresa, então, que algumas empresas estejam a tentar transformar o gosto num modelo treinável. É o caso da Taste Labs, uma startup que promete ensinar inteligência artificial a reconhecer o que os seres humanos consideram ser 'de bom gosto'. É uma ideia que parece colidir com a própria definição proposta pela Segal. Se o gosto vem das relações entre objetos, pessoas, histórias e contextos, pode realmente reduzir-se a um conjunto de dados? Teria de dizer não. A inteligência artificial pode aprender a reconhecer os códigos estéticos que associamos a um determinado imaginário, mas continua a confundir o símbolo com o seu significado. Ela é muito boa, escreve Segal, em “identificar os sinais distintivos do gosto”, mas “péssima em entender quando estes perderam o sentido ou o que deveria substituí-los por algo verdadeiramente inovador”. Por isso, acrescenta, “a crescente obsessão da tecnologia pelo gosto não tem a ver com a estética, mas reflete uma profunda ansiedade sobre a capacidade do capital económico de se apoderar do capital cultural”.

@cocochanelchannel honestly grateful for the girlies who bought my sonny angels off depop <3 wouldn’t feel less regretful without you #slop #taste #blindbox #yap #lesbian Fairytale landscape with fairies and butterflies(1207662) - Harmonia

O antídoto para o tasteslop

O antídoto para o tasteslop, portanto, não é comprar os artigos certos, mas treinar os seus olhos. Assistir a exposições, ler, discutir ideias longe das suas, entrar num brechós sem procurar uma peça específica, deixando a curiosidade contar mais do que o algoritmo. O sabor de hoje não é - e talvez nunca será - uma lista de verificação. É uma prática. E talvez a questão mais premente hoje não seja se ainda temos bom gosto, mas se ainda existem condições culturais, económicas e criativas para que nasça algo que amanhã reconheceremos como tal.

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