Passaporte Digital do Produto: o que é e porque é que vai mudar a forma como fazemos compras Como os produtos estão a tornar-se transparentes, rastreáveis e conectados ao longo do tempo

Durante anos, compramos roupas olhando para o que estava bem à nossa frente: a forma, a cor, o preço, o rótulo na etiqueta. Além disso, sabíamos muito pouco. Não estava claro de onde realmente vinha uma peça de roupa, quem a fazia, que materiais continha, ou que processos passava antes de chegar à loja ou à nossa porta. Essa informação existia, mas estava espalhada por fornecedores, documentos e sistemas diferentes, difícil de juntar e ainda mais difícil de entender.

O que é o Passaporte Digital do Produto e porque é que está a mudar tudo

Hoje, essa história pode finalmente emergir. Com o Passaporte Digital de Produto, um produto deixa de ser apenas algo que compra e usa. Torna-se algo que pode contar a sua própria história, um ponto de acesso a dados anteriormente fragmentados entre os sistemas e stakeholders: origem, materiais, processos, certificações, impactos, jornada. Mas a questão não é apenas ter mais informações. A verdadeira mudança é que o produto deixa de ser silencioso. Torna-se um ponto de ligação entre marca e cliente, mesmo após a compra.

Da transação à relação: o produto passa a ser um ponto de contacto

A relação já não termina no checkout. Pode continuar ao longo do tempo, evoluir, expandir-se, tornar-se mais útil e mais transparente. Uma peça de vestuário já não é apenas um objeto estático, mas algo que acompanha, informa e cria ligações. Entre os que produzem e os que compram. Entre a marca e a sua cadeia de abastecimento. Entre o presente do produto e tudo o que ele carrega consigo.

O problema dos dados: porque é que a transparência é complexa

Por trás desta transformação, no entanto, há mais do que apenas um código a analisar. É necessário um esforço significativo para recolher os dados certos, organizá-los, ligá-los aos sistemas da empresa e torná-los fiáveis. Ou seja: garantir que a história seja verdadeira, legível e útil. Este é exatamente o tipo de desafio em que Iris Skrami, empreendedora e co-fundadora da Renoon, foca hoje, depois de trabalhar em projetos de inovação digital para empresas como a Nike, Luxottica e PVH. Em ambientes complexos, onde os dados do produto existem mas são distribuídos entre sistemas, fornecedores e departamentos, o verdadeiro obstáculo não é a falta de informação, é a fragmentação.

Regulamentos europeus: o que muda com a ESPR

Este cenário está a tornar-se cada vez mais urgente de abordar porque, a nível europeu, com a entrada em vigor do Regulamento do Ecodesign para Produtos Sustentáveis (ESPR) em 2024, o Passaporte Digital do Produto está a ser introduzido como requisito para tornar a informação do produto acessível, estruturada e verificável ao longo de todo o seu ciclo de vida. Os primeiros requisitos de aplicação para setores prioritários, como têxteis e vestuário, estão previstos a partir de 2027, tornando essencial que as empresas comecem hoje a estruturar dados e sistemas.

Como as marcas estão a aplicar o Passaporte Digital do Produto

É aqui que a Renoon opera: transformar dados dispersos de produtos em sistemas que as empresas possam realmente usar — e que as pessoas possam compreender. As marcas com as quais colabora já são numerosas, tanto em Itália como em toda a Europa. Estes incluem Dondup e Artknit Studios, enquanto a nível europeu o trabalho envolve mais de 30 empresas. No caso da Dondup, o Passaporte Digital do Produto é aplicado a uma das cadeias de abastecimento mais complexas da moda: o denim. Através da estruturação dos dados do produto e da rastreabilidade dos processos de produção, o projeto torna visíveis etapas tipicamente opacas, oferecendo um nível de transparência mais concreto e acessível para os consumidores. Ao mesmo tempo, o produto passa a ser um ponto de contacto direto com o cliente, possibilitando novas formas de relacionamento, personalização e engagement a longo prazo.

Tecnologia e sustentabilidade: o caso Ganni e dados de satélite

Entre os projetos mais significativos está o desenvolvido com a Ganni, em conjunto com a EUSPA, para integrar os dados do satélite Copernicus e observar de perto a biodiversidade e as dinâmicas ambientais ao longo da cadeia de abastecimento. Na Copenhagen Fashion Week, onde a Renoon é o parceiro tecnológico oficial, ficou claro que o Passaporte Digital do Produto está a evoluir para algo muito além de uma ferramenta regulatória. Cada vez mais, parece ser uma nova infra-estrutura de produto: uma forma de tornar os produtos mais transparentes, mais conectados e, em última análise, mais próximos das pessoas.

O que ler a seguir